Por enquanto

Quando a discussão envolve o risco de atirar-se ao mar, corajosos —porém, não necessariamente destemidos— caem de cabeça nas águas mais desconhecidas de oceanos tão profundos. Isso, porque mergulhar é um ato nato para quem tem ousadia de arriscar-se. Arriscar não só a si, mas tudo que existe em sua volta. 
28 de dezembro - Pier da Boa Esperança, em algum lugar dentro do lado esquerdo da anatomia humana. 
08:10 AM, tempo parcialmente nublado, com previsão de sol ao longo do dia. 
Quando me dei conta estava inerte, na beira de uma ponte sem fim... Na verdade, era um pier. A água do mar, estava logo abaixo dos meus pés. Era tão sombria quanto a escuridão mais fria de um ambiente desconhecido. Aquilo parecia muitas coisas, enxergava no reflexo turvo daquela água a maioria dos meus medos e a maioria dos problemas que aconteceriam, caso eu me atirasse. Entretanto, dentro daquelas águas geladas e da imensidão profunda de possibilidades desconhecidas, enxerguei também, com os meus graus de miopia, uma oportunidade de ser melhor e mais feliz. —Eu realmente vi isso. 
Meus dedos dos pés se mexiam muito, procurando um último conforto sólido, no qual pisariam antes do pulo mais corajoso que alguém pode dar. E foi então que fechei olhos, chorei silenciosamente, deixando minhas lágrimas caírem, sem preocupação, e tocarem primeiro aquele mar, que eu. Então, respirei profundamente, erguendo meu peito para frente e minha mente para um estado quase que meditativo. Buscava paz para encontrar amor. E me joguei, por um momento, sem temor. 
A previsão era que o dia abrisse, e isso aconteceu. O sol apareceu se mantendo vivo e quente por muito tempo. Pulei. E não foi um pulo em pé, estava disposto a mergulhar de cabeça, e dessa forma aconteceu. Meus dedos das mãos alcançaram aquela imensidão escura, salgada e fria. Depois, todo o meu corpo, quase nu, agora molhado com águas conhecidas pelas minhas gotas de lágrima. O sol abriu no instante em que pulei. O mar ficou cristalino e a temperatura extremamente agradável. Ao ver aquelas águas claras e enxergar a vida como nunca vista, decidi nadar mais e aproveitar aquilo tudo que me acontecia. 
A previsão era de sol e eu só queria nadar. 


02:47 PM, 9 de janeiro, Pier da Boa Esperança. 
Achei que já estaria acostumado àquelas águas e depois de muitos dias, aproveitando o calor do sol e a claridade dos mares, na tarde do dia nove, o tempo fechou.  
Havia ido para o pier, para mais um mergulho, mas neste dia, tudo estava diferente. 
O ambiente parecia mais frio, as águas pareciam novamente desconhecidas, e a vida mais parada. Algumas pessoas julgam a estabilidade algo bom, mas eu nunca fui algumas pessoas. Pra mim, a instabilidade, faz parte dos altos e baixos que o nosso coração precisa pra sobreviver. Portanto, aceitar a instabilidade é aceitar a efemeridade, e entender porque ser é mais importante que ter. Baseado nos meus ideais e na minha curta experiência de longos dias de sol, me lancei no mar. E por talvez ser intenso e audacioso demais, mesmo com a maré escura e sem saber sobre o tempo, nadei pra longe. Nadei. Nadei. Nadei. 
A chuva veio e junto à correnteza, me arrastou de uma forma inexplicável. Tive muito medo. Mas, lá, bem longe, perto de onde mora a imensidão, enxerguei um feixe de luz, vindo em minha direção. Consegui ver o pier novamente, para poder voltar, e quando me dei conta, já estava fazendo isso. Ia dar um tempo ao tempo. Para que ele se estabilizasse e as coisas voltassem ao estado cristalino. 
Estava voltando, quando de forma inesperada, a tão conhecida "instabilidade vital" decidiu surpreender-m novamente. Uma grande nuvem, carregada de cores taciturnas, parou sobre o mar, escurecendo tudo a minha volta. O vento voltou a soprar, e a correnteza me levou pra longe. De repente, me vi sozinho, no meio do oceano. 
Sozinho. 
Comecei a chorar, mas meu choro não tornava as águas mais amigáveis, ele só prolongava o sofrimento e as deixava mais cruéis. Tentei boiar. Aceitar a solidão e escutar a profundeza da alma. Mas a agitação da minha mente, era maior que a agitação do mar. O tempo fechou. Eu tinha pulado. Eu fiquei perdido. E dessa vez, não me encontrei na solidão.